Palavras-chave
reabilitação - ombro/cirurgia - fisioterapia - ortopedia - telefone celular
Introdução
As orientações dadas pelo médico sobre o processo de reabilitação após um procedimento cirúrgico são essenciais para um bom resultado final e devem ser bem compreendidas pelo paciente. Os protocolos de reabilitação vêm sendo discutidos e aplicados há tempos, embora variem de acordo com o tipo da lesão tratada, orientação do serviço e preferência do cirurgião.
De forma geral, a reabilitação é tão importante quanto o procedimento cirúrgico, visto que a articulação do ombro está sujeita a uma rápida instalação de rigidez articular e atrofia no pós-operatório.[1] Deste modo, é importante que o paciente realize alguns movimentos antes de ser encaminhado para um serviço de reabilitação.[2]
À medida que o acesso à internet e as tecnologias aplicadas a smartphones avançam, tanto a população como a medicina tentam acompanhar esta evolução. Assim, a comunicação médico-paciente pode ser realizada de forma virtual através de aplicativos pelo celular[3]
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[9] para discutir orientações pós-operatórias, promovendo a retirada de dúvidas simples, o estreitamento da relação médico-enfermo.[7]
É inegável que a tecnologia por meio dos novos aplicativos de celulares foi desenvolvida, definitivamente, para facilitar a comunicação.[8] Sem dúvida o paciente torna-se atuante no seu tratamento,[4] sente-se incluído e, com isso, torna-se mais participativo.
Para esclarecer dúvidas relacionadas ao procedimento, foi desenvolvido um aplicativo com vídeos autoexplicativos para que o paciente possa rever a orientação de seu médico. O aplicativo não tem a intenção de tratar o paciente, sendo pela sua simplicidade, um meio de comunicação, sobre o qual o paciente deve seguir a prescrição do profissional. Deste modo, o presente estudo objetivou avaliar qualitativamente um aplicativo desenvolvido para orientar pacientes no período pós-operatório de procedimentos cirúrgicos do ombro, auxiliando o indivíduo no entendimento sobre o processo inicial de reabilitação.
Materiais e Métodos
O trabalho consistiu na aplicação de um questionário para avaliação da percepção dos pacientes sobre a criação de um aplicativo que os oriente no pós-operatório em cirurgias realizadas no ombro. O questionário continha questões sobre a facilidade em se realizar o download, facilidade para o entendimento dos exercícios, possível indicação do aplicativo, posicionamento sobre a participação do paciente com relação ao tratamento da doença e se o indivíduo considerou o programa autoexplicativo.
O aplicativo foi criado a partir do software iGenApps (iGenApps, São Francisco, CA, EUA), disponível nos sistemas Android@ e Playstore. Este foi desenvolvido para ser utilizado de maneira gratuita, com linguagem simples e didática, através de uma sequência de textos, vídeos e ilustrações ([Figura 1]). A plataforma para sua criação foi o programaigenApps, que usa linguagem Java e auxilia na criação de aplicativos tanto para o sistema Android como para o iOS. A criação e desenvolvimento deste foram realizados por um dos autores ([Figura 2]).
Fig. 1 Orientações para execução dos exercícios. Fonte: Arquivo pessoal do autor.
Fig. 2 Tela Inicial do aplicativo de celular. Fonte: Arquivo pessoal do autor.
O software iGenApps permite a inserção de textos e links de vídeos. Deste modo, foram gravados uma série de vídeos pelo youtube, sendo que os links, além dos textos, foram disponibilizados no aplicativo.
Após a cirurgia, as orientações pós-operatórias foram realizadas normalmente pelo médico assistente. O diferencial foi a solicitação para que o paciente assistisse aos vídeos e relembrasse os exercícios demonstrados na primeira consulta pós-operatória.
Os pacientes foram monitorados quanto ao uso do aplicativo através de uma ferramenta do aplicativo que informava quantas vezes ele foi acessado. Ao final de 6 semanas de acompanhamento, época em que o paciente é encaminhado à reabilitação, foi fornecido o questionário para avaliação do uso e facilidade do aplicativo em questão, integralmente de forma qualitativa (Anexo 1).
Foram avaliados 32 pacientes, dentre os quais, 2 foram excluídos devido a falta de acesso a internet própria ou compartilhada (ambos moravam em zona rural). A aplicação do questionário foi realizada para os pacientes em pós-operatório dos hospitais credenciados relativos ao treinamento avançado de cirurgia do ombro e cotovelo da nossa instituição.
Resultados
Dos 30 pacientes que compuseram a amostra, 13 eram do sexo masculino e 17 do sexo feminino, com idade média de 48 anos e nível escolar, em sua grande maioria, fundamental (10 pacientes) e médio (14 pacientes). Nenhum dos avaliados tinham pós-graduação, apenas dois tinham curso superior e três pacientes eram não escolarizados.
Observou-se que, a maioria dos pacientes acessaram o aplicativo entre 5 e 10 vezes ([Figura 3]).
Fig. 3 Acesso dos pacientes ao aplicativo.
Com relação à aplicação do questionário, foi possível constatar que 97% dos respondentes referiram fácil download, alegaram facilidade de entendimento dos exercícios e indicariam o aplicativo para alguém que tivesse dúvidas em relação à realização desses no período após procedimento cirúrgico ao nível do ombro. Quando perguntados se o aplicativo fez com que se sentissem mais participativos com relação ao tratamento da sua doença, 93% referiram que sim e 90% consideraram o aplicativo autoexplicativo. Os dados referentes à aplicação do questionário estão descritos na [Tabela 1].
Tabela 1
Perguntas realizadas
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Quantidade total de respostas
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Respostas SIM
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Respostas NÃO
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Quantidade
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Porcentagem (%)
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Quantidade
|
Porcentagem (%)
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Teve facilidade para realizar o download?
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30
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29
|
97
|
1
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3
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O aplicativo facilitou o entendimento dos exercícios?
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30
|
29
|
97
|
1
|
3
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Você indicaria o aplicativo para alguém que tivesse dúvidas em relação ao procedimento cirúrgico?
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30
|
29
|
97
|
1
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3
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O aplicativo fez com que você se sentisse mais participativo com relação Ao tratamento de sua doença?
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30
|
28
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93
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2
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7
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Você considera o aplicativo autoexplicativo?
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30
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26
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87
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4
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13
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Discussão
Com relação ao entendimento dos exercícios, os entrevistados afirmaram que o aplicativo facilitou de alguma forma a compreensão. Um dos avaliados relatou: “os vídeos me trouxeram segurança para executar os exercícios prescritos pelo médico.” A visualização por meio dos vídeos, fez com que o paciente pudesse ver e rever os exercícios prescritos, diminuindo assim as dúvidas de execução em seu domicílio. Estes dados corroboram com o encontrado em uma pesquisa, na qual os aplicativos para smartphones foram considerados práticos.[10] Em contrapartida, a queixa sobre a baixa evidência científica sobre o uso de aplicativos aplicado à reabilitação,[3] validação, e falta de participação médica direta nos aplicativos não foram observados em nosso estudo. Houve participação médica direta em todas as fases da criação do aplicativo, e os exercícios propostos nos vídeos já haviam sido descritos e validados em outro estudo de reabilitação.[1]
A satisfação perante o uso do aplicativo foi observada na pergunta “Você indicaria o aplicativo para alguém que tivesse dúvidas em relação ao procedimento cirúrgico?,” para a qual uma porcentagem significativa demonstrou aceitação. Observam-se duas situações que justificam tal aceitação. A primeira é a familiaridade com a tecnologia e a acessibilidade, pois o paciente pode, no conforto de sua residência, acessar a qualquer hora o programa. Esta praticidade é um fato também observado em outros estudos.[4]
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[9]
[10]
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[12] A segunda é a sensação de maior proximidade médico-paciente.[2]
Apesar da proximidade médico-paciente proposta pelo programa, dois pacientes consideraram o aplicativo com os vídeos bastante didático, mas afiramram que a explicação do médico sempre vai agregar mais informações. Um paciente referiu que o aplicativo não teve nenhum impacto em relação ao entendimento, visto que o médico já tinha sanado todas as suas dúvidas. Isso demonstra que, apesar do auxílio tecnológico, a presença do profissional é de extrema relevância em qualquer fase de tratamento.
Outros achados similares ao nosso estudo foram descritos por Harder et al.,[4] em que um aplicativo foi criado diretamente por um profissional de saúde, no caso em questão um fisioterapeuta, cuja finalidade era auxiliar na reabilitação do paciente após procedimento de mastectomia. O estudo teve impacto positivo, visto que o aplicativo auxiliou os pacientes no pós-tratamento para câncer de mama, porém com uma amostra inferior (nove pacientes) ao do presente estudo. Eaton et al.[13] avaliaram o uso da interface no aprendizado médico e concluíram que esta auxiliou no aprendizado dos residentes e fellowships de cirurgia.
Rassouli et al.[5] avaliaram o uso de diversos aplicativos por 20 dias, para reabilitação de pacientes com doença pulmonar crônica e concluiram que, além de ser uma ferramenta razoável, o aplicativo fornece informações adicionais aos médicos assistentes.
Outra pesquisa, realizada com o propósito de instruir exercícios domiciliares, avaliou cinco pacientes com capsulite adesiva e verificou que o uso da tecnologia é útil para reabilitação de pacientes. A vantagem do aplicativo proposto no estudo foi a capacidade de avaliar e registrar nele próprio o grau de amplitude de movimento e duração do exercício por paciente.[14] No presente estudo, o aplicativo não foi capaz de registrar o tempo de visualização de cada exercício; porém, foi possível identificar que este facilitou a comunicação e o entendimento dos exercícios, como o observado em diversas outras pesquisas.[4]
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Gilbert et al.[8] avaliaram a reabilitação de pacientes com doenças relativas ao ombro, através do aplicativo MUJO (Paris, France), e concluíram que ele não interfere em nenhum protocolo de reabilitação já estabelecido. Pelo contrário, pode ser implantado e adaptado na rotina do médico assistente e fisioterapeuta especialista.
É sempre útil destacar que o não-seguimento das prescrições ou sua realização de forma errônea podem ocorrer, visto que nesse caso o paciente é parte atuante de seu tratamento. Como estudos futuros, sugere-se avaliar os pacientes que tiveram acesso e usaram o aplicativo, comparando a qualidade de sua reabilitação com a do grupo que não tenha utilizado esta tecnologia.
Conclusão
Conclui-se que o uso de uma plataforma virtual é útil para a compreensão sobre o tratamento e auxilia na prescrição médica de exercícios pós-operatórios domiciliares após procedimentos cirúrgicos de ombro.
O aplicativo proposto é de fácil entendimento, rápido para o sistema operacional e cumpre o objetivo de orientar o paciente como parte de seu tratamento, englobando-o como atuante no tratamento de sua própria enfermidade.
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1) IDADE:
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2) GÊNERO: M / F
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3) ESCOLARIDADE:
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NÃO ESCOLARIZADO
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ENSINO FUNDAMENTAL
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MÉDIO
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SUPERIOR
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PÓS GRADUADO
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4) POSSUI INTERNET PRÓPRIA OU COMPARTILHADA ?
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5) NÚMERO DE ACESSOS AO APLICATIVO:
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0 A 5
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5 A 10
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10 A 15
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MAIS QUE 15.
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6) TEVE FACILIDADE PARA REALIZAR O DOWNLOAD DO APLICATIVO?
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7) O APLICATIVO FACILITOU O ENTENDIMENTO DOS EXERCÍCIOS?
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8) VOCÊ INDICARIA O APLICATIVO PARA ALGUÉM QUE TIVESSE DÚVIDAS EM RELAÇÃO AO PROCEDIMENTO CIRÚRGICO?
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9) O APLICATIVO FEZ COM QUE VOCÊ SE SENTISSE MAIS PARTICIPATIVO COM RELAÇÃO AO TRATAMENTO DE SUA DOENÇA?
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10) VOCÊ CONSIDERA O APLICATIVO AUTOEXPLICATIVO (OU PRECISARIA DO MÉDICO PARA TE ORIENTAR)?